terça-feira, 31 de agosto de 2010

Era fim de agosto


... numa noite qualquer, estávamos ali sentados, eu sempre compreensiva e ele sempre atormentado com o mesmo problema. Ali do meu lado eu via um homem de 24 anos parecendo uma criança de 8 com medo de dormir no escuro. Encolhido, com suas mãos sobre as minhas, duas crianças compartilhando segredos. “Você não acha que eu sou louco, não é mesmo?” os fones de ouvido tocando aquela musica, minha mente ocupada demais pra prestar atenção nela. “Claro que não, você apenas tenta fazer as coisas do jeito certo, da tua maneira, mas procura sempre o certo...” um suspiro, de novo a concentração voltada ao toque das mãos, a luz do refletor que indicava o numero da poltrona do ônibus prendia o olhar, “Você gosta mesmo dos loucos, sinal de que é um pouco louca também” um riso, o silencio, a luz, a musica, as mãos, o homem, o menino, o pensamento & uma conclusão: loucura é definitivamente sinônimo de CARÊNCIA.

Lais Parnow 31/08/2010

O Baile



Toda máscara tem duas aberturas na área dos olhos, para que, mesmo quando privamos o mundo de ver nossa verdadeira face, consigamos, mesmo assim, enxergar. Com a idade, as pessoas vão, aos poucos descobrindo que é tão cômodo, é tão mais seguro esconder a fisionomia, que passam a achar que não vale mesmo a pena presentear o mundo com transparência.
No entanto, são justamente os olhos que desmentem as máscaras. Eles estão e estarão para sempre lá, descobertos. E eu, da mesma forma que você, mesmo vivendo num interminável baile de máscaras, já aprendi a olhar através da porcelana, a fitar os olhos tristes que estão logo acima do sorriso radiante.
No entanto, o que eu enxergava era tão bonito que me parecia apenas a mais bela máscara do baile, uma plástica distração que me transformaria em joguete, hipnotizado por aquela face que ostentava dolorosa beleza. Até hoje apalpo teu rosto procurando emendas, desníveis, vestígios de cola ou encaixes bem-feitos, sem sucesso algum. Me deixei ser levado por tamanho encanto, e sigo flutuando em simples nuances de voz, sussuros inesperados e intrincados escritos.
Abriu-se uma roda. Somos o par que dança alegremente entre os mascarados, sentindo na pele do rosto a brisa de lança-perfume que faz parar o tempo, devidamente despidos das máscaras.

(Beeshop)

Vai passar, tu sabes que vai passar.



Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe?O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como " estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloquentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não.Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência. Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia,sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços. Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome,a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada.(...)

(Caio F.)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

- Havia, naquele momento,


...mais de seis bilhões de pessoas no mundo. Mas era de uma única que ela sentia falta. Sentia falta do sorriso que encontrava por acaso no meio do caminho. Sentia falta do abraço protetor, do abraço carinhoso... Do abraço dançante que a embalava naquele colo. Ela sentia falta do brilho do olhar e das palavras sussurradas ao pé do ouvido. Sentia falta do conjunto, do riso, das canções, da parte que já não tinha. Ele. Ele. Dele (!). Já não sabia mais se a saudade era a palavra certa. Não sabia mais onde encontrar seu porto seguro. Saudade incômoda e dolorosamente aconchegante. Talvez, numa tentativa de salvar-se de sua própria sina, usasse esse sentimento como cura. Como cura de suas febres e aflições. Talvez fosse a única forma de transportar-se para o momento onde sentia que poderia ser ela mesma novamente. Talvez fosse a única forma que tinha de transformar-se naquilo que havia sido. Sentia que saudade não era aquele tormento que diziam. Era sua única saída para a vida que sonhava. Era o tempero de seus sonhos. Pensava assim e sorria. Sentia falta do par de olhos ao ver o pôr-do-sol e da mistura de braços daquele abraço que sempre era seguido do mais doce riso. Sentia falta da sua metade, do seu complemento. Sentia falta do amor. Sentia falta de amar.

(One Tree Hill)

"Se tudo o mais perecesse e enquanto ele perdurasse...





 ... eu ainda continuaria a existir, e se tudo o mais restasse e ele fosse aniquilado, o universo se tornaria muito mais estranho"